Por Higor Maffei Bellini
Até que ponto o uso da inteligência artificial está realmente ajudando o mundo jurídico? Ou será que já ultrapassamos o limite invisível em que o que deveria ser a ferramenta de suporte se transforma no próprio protagonista?
Hoje, os anúncios de plataformas de IA prometem milagres: o advogado não precisa mais estudar o caso com profundidade, não precisa mais “perder” horas fazendo petições preso no escritório. Basta comprar uma ia jurídica, para chamar de sua, enviar o documento, que a inteligência artificial analisa, identifica fundamentos, monta a petição completa e o profissional só “cola” no processo. É rápido, barato e, segundo as empresas, quase à prova de erro.
O problema é que o mesmo movimento está acontecendo do outro lado do balcão do fórum.
Tribunais já utilizam sistemas de IA para triagem, análise de petições e até elaboração de minutas de decisão. Casos reais já circulam nas redes e em grupos de profissionais: juízes publicando sentenças que ainda trazem o prompt original da ferramenta, trechos de instrução que nunca deveriam ter chegado ao público.
Do lado do advogado, a resposta estratégica já que os olhos humanos deixaram de trabalhar foi começar a usar o prompt injection, ou seja, inserir comandos ocultos no texto da peça para influenciar o algoritmo que, sabe-se, será o primeiro (e muitas vezes o único) “leitor” da petição.
O olho humano, cada vez mais, não vê a petição em ambos os lados do processo.
Não se trata de demonizar a tecnologia. Este próprio texto passou por revisão de uma inteligência artificial. A IA é útil para organizar jurisprudência, detectar inconsistências, acelerar pesquisas e reduzir erros formais.
O ponto crítico é outro: o pensar jurídico formado ao longo da vida do advogado, que nunca deixa de estudar o direito e matérias correlatas ou não, está sendo substituído pela simples junção de informações geradas por uma máquina.
O direito nunca foi apenas aplicação mecânica de dispositivos, se “A” é “B” deve ser . É interpretação, ponderação de valores, construção de narrativa, sensibilidade ao caso concreto e responsabilidade ética. Quando o advogado deixa de ler, de raciocinar e de argumentar com profundidade, e o juiz deixa de julgar para apenas validar (ou nem isso) o que a máquina produziu, o que sobra?
Estamos vivendo uma cadeia de automações em que ninguém realmente pensa, que me lembra a famosa cena do filme cena clássica de Tempos Modernos, de Charles Chaplin, onde seu personagem Carlitos, está preso à esteira de produção, deixa de ser humano e vira apenas um corpo que corre atrás de apertar parafusos. Não pensa mais. Não sente. Só executa o gesto repetitivo que a máquina exige.
Estamos vivendo uma transformação cuja direção ainda não está clara. Pode ser que a IA se torne uma aliada poderosa, liberando tempo para o que realmente importa: estratégia, oratória, humanização do conflito.
Mas o risco oposto é concreto e já se manifesta: a perda progressiva da capacidade de raciocínio jurídico autônomo. A ferramenta deixa de auxiliar e passa a protagonizar. O profissional vira operador de prompt. O tribunal vira validador de output.
A pergunta que precisamos enfrentar com urgência não é se a IA deve ou não ser usada, ela já está sendo. A pergunta é: quem continua pensando?
Porque se ninguém mais pensar de verdade, o direito deixa de ser um sistema de justiça e vira apenas um sistema de processamento de dados. E aí, o preço pode ser alto demais.
Deixe um comentário