O sigilo profissional também precisa entrar em campo

Por Higor Maffei Bellini

A transformação dos clubes associativos em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) trouxe uma nova realidade, que nos tempos dos clubes não existia, e que agora precisa receber mais atenção, por parte das instituições: as informações internas do futebol passaram a circular em um ambiente empresarial no qual profissionais mudam de emprego, como mudam de pensamento, e podem trabalhar, em momentos diferentes, para organizações concorrentes.

Essa movimentação não é novidade no esporte. Técnicos, integrantes das comissões e outros profissionais de posição que não eram estratégicos do ponto de vista da gestão, deixam um clube e seguem para outro. A diferença é que, com a SAF, muitas informações antes concentradas em estruturas associativas, nas mãos de diretores estatutários, que não trocariam seus clubes, pelo rival por uma simples questão de paixão, passam a fazer parte de uma empresa que negocia contratos, administra receitas e despesas, planeja investimentos e toma decisões estratégicas.

Quando um profissional troca de emprego, leva consigo sua experiência e o conhecimento que adquiriu ao longo da carreira. Isso é natural e não deve ser confundido com a apropriação indevida de informações. O problema surge quando, junto com a experiência, também são compartilhados dados internos que pertencem à organização, que o mantinha como empregado, consultor ou qualquer outro cargo que tenha, e cuja divulgação pode prejudicar o antigo empregador, os atletas ou outras pessoas.

Nem sempre se percebe o valor dessas informações.

É fácil reconhecer o caráter estratégico de um contrato milionário ou de uma negociação em andamento. Menos evidente, mas igualmente relevante, pode ser o conhecimento sobre valores que o clube ainda deve pagar, quantias que espera receber, limites financeiros para contratar ou renovar, condições negociadas com patrocinadores e planejamento para a temporada.

Há, porém, um tipo de informação que exige cuidado ainda maior: os dados sobre a saúde dos atletas.

Uma lesão, um diagnóstico, o tempo estimado de recuperação, um tratamento em curso ou uma avaliação médica podem influenciar decisões esportivas e financeiras. Também dizem respeito à intimidade de quem joga. Se essas informações circulam sem controle, podem expor a atleta, afetar sua relação com o mercado ou ser usadas em negociações sem que ela sequer saiba como seus dados foram tratados.

O futebol costuma falar de sigilo quando o assunto envolve escalação, contratação ou estratégia de jogo. Mas a proteção das informações de saúde precisa estar no mesmo nível, talvez até em nível mais alto. Não se trata de esconder problemas que devam ser comunicados a quem precisa cuidar do atleta. Trata-se de impedir que dados pessoais circulem sem necessidade, finalidade ou responsabilidade.

A existência das SAFs torna mais urgente que os clubes definam quais informações são confidenciais, quem pode acessá-las e em que situações elas podem ser compartilhadas. Também é preciso estabelecer procedimentos para a saída de profissionais, com a revogação de acessos a sistemas e documentos e a preservação de materiais internos. Medidas simples, se forem aplicadas com seriedade, reduzem o risco de vazamentos e ajudam a proteger tanto a empresa quanto as pessoas que trabalham nela.

Esse cuidado não pode virar uma proibição genérica de o profissional seguir sua carreira ou usar os conhecimentos que acumulou. O objetivo é distinguir a experiência pessoal, que acompanha qualquer trabalhador, das informações específicas às quais ele teve acesso por ocupar determinada função. Essa distinção precisa ser clara para todos, inclusive para quem contrata e para quem deixa o clube.

Outro ponto de gestão que precisa ter cuidado, para que não vaze, com a mudança do empregado, é o relativo a quando aquela SAF, ou até mesmo um clube, já que muitos passaram a contratar profissionais, para cuidar de questões cotidianas da gestão, quando aquele clube terá dificuldades financeiras em razão da necessidade de arcar com pagamentos de contratações, ou quando o patrocínio pagará menos. Pois o rival, com essa informação, poderá fazer investidas para retirar jogadores, treinadores ou ainda outros trabalhadores da gestão.

As SAFs aproximaram o futebol de uma gestão empresarial mais estruturada. Essa mudança exige atenção também ao que não aparece no campo nem nas demonstrações financeiras: as informações que circulam entre departamentos, profissionais e instituições.

Proteger esses dados é proteger negociações, estratégias e, acima de tudo, a confiança de quem entrega ao clube informações que não deveriam se tornar assunto de corredor.

Pois nenhuma SAF, ou clube quer correr o risco de, na sexta-feira, o seu empregado estar fechando a renovação de um patrocínio, ou uma contratação de jogador, ou a compra de um terreno às 19:00h. E na segunda às 09:00 estar iniciando em um novo clube, em uma nova cidade com aquelas informações em mente. Pode usar em benefício do seu novo empregador.

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