Advocacia Fordista: Como a Divisão do Trabalho nos Escritórios Pode Tornar Advogados Substituíveis pela Inteligência Artificial

Por Higor Maffei Bellini


Hoje, muitos advogados ouvem, em perfil de redes sociais, de pessoas que se apresentam como consultores ou mentores de advogados,  que para alcançar o sucesso profissional, precisam organizar os seus escritórios segundo uma lógica de especialização: cada profissional deve executar apenas uma pequena etapa do trabalho, repetidamente, dentro de uma espécie de linha de produção do processo judicial.

Um advogado faz a petição inicial, outro acompanha os prazos, outro elabora recursos, outro participa das audiências e assim sucessivamente.

Esse modelo costuma ser apresentado pelos consultores, em cursos de gestão e especialistas de internet como uma forma moderna de administrar escritórios jurídicos, que quem não faz assim está fora ou desatualizado.

No entanto, há uma grande ironia evidente nessa suposta novidade: trata-se, em grande medida, da adaptação ao setor de serviços jurídico, que justica mente se apresenta como acesa a mercantilização, de princípios de organização do trabalho industrial desenvolvidos ainda entre o final do século XIX e o início do século XX, especialmente pelo taylorismo e pelo fordismo.

A lógica desta “modernidade” é velha  conhecida. Divide-se uma atividade complexa em tarefas menores, especializam-se os trabalhadores em determinadas funções, estabelecem-se procedimentos padronizados e procura-se aumentar a produtividade pela repetição.

Aquilo que Henry Ford aplicou às linhas de montagem industriais, de seus veículos, passa com as devidas adaptações, a ser utilizado na produção de serviços jurídicos.

É verdade que existem vantagens nesse sistema. Um profissional que realiza dezenas ou centenas de vezes a mesma atividade tende a executá-la com maior rapidez e precisão. A divisão de tarefas também pode tornar o escritório mais eficiente, facilitar o controle de qualidade e permitir o atendimento de um grande número de clientes, porém, matando o tratamento individualizado e acolhedor típico da advocacia. Sob a ótica empresarial, do dono do escritório portanto, existe uma racionalidade evidente nessa organização.

O problema surge quando a eficiência passa a ser o único critério relevante, para fazer a gerência do escritório

O advogado que permanece durante anos executando somente uma pequena parcela do trabalho pode tornar-se excelente naquela tarefa específica, mas corre o risco de deixar de compreender o processo como um todo. Em vez de formar um profissional capaz de analisar um problema jurídico desde o primeiro contacto com o cliente até a decisão final, forma-se alguém altamente especializado numa etapa da engrenagem.

Com o tempo, essa especialização pode produzir uma situação paradoxal.

O profissional torna-se simultaneamente muito eficiente para um tarefa específica e só mesmo tempo facilmente substituível. Se o seu trabalho consiste essencialmente na execução repetitiva de uma atividade padronizada, outro advogado treinado para seguir o mesmo procedimento pode ocupar o seu lugar.

E, assim cada vez mais, determinadas tarefas, dentro dos escritório de advocacia podem também ser parcialmente automatizadas por sistemas de inteligência artificial.

A tecnologia voltada para a área jurídica torna essa questão ainda mais relevante. Atividades jurídicas que não envolvem um maior raciocínio lógico e jurídico, como pesquisa jurisprudencial, revisão de documentos, organização de informações e produção de textos jurídicos padronizados já podem ser auxiliadas por ferramentas de inteligência artificial. Quanto mais mecânica, repetitiva e previsível for uma função, maior tende a ser o potencial de automatização.

Nesse cenário, aquilo que parecia ser uma estratégia de modernização pode acabar tornando o próprio advogado mais vulnerável. Ao transformar profissionais em executores especializados de pequenas tarefas, o escritório pode aumentar a produtividade imediata, mas diminuir a formação intelectual e estratégica daqueles que nele trabalham.

Isso não significa que a divisão de funções seja necessariamente negativa. Em organizações complexas, algum grau de especialização é inevitável e muitas vezes desejável. O problema está na especialização sem compreensão do conjunto.

Um bom advogado não deveria saber apenas produzir uma determinada peça ou cumprir uma determinada etapa processual. Deveria compreender o problema do cliente, construir uma estratégia, avaliar riscos, dominar os fundamentos jurídicos, comunicar-se adequadamente e entender as consequências das decisões tomadas durante todo o processo.

Há, portanto, algo curioso no discurso contemporâneo sobre a “modernização” da advocacia. Em muitos casos, aquilo que é apresentado como inovação consiste simplesmente em transportar para os escritórios jurídicos uma lógica de organização criada para as fábricas de mais de um século atrás.

Talvez a verdadeira modernização esteja justamente em fazer o contrário: utilizar tecnologia e organização para eliminar o trabalho repetitivo, preservando ao advogado aquilo que possui maior valor,  a capacidade de compreender o todo, raciocinar estrategicamente, exercer julgamento profissional e lidar com situações que não cabem numa linha de produção.

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