Higor Maffei Bellini
Tenho visto, cada vez mais, vídeos, nas redes sociais, de advogados e advogadas em supostas audiências. Digo “supostas” porque, em muitos casos, aparecem situações que considero muito, mas muito, fora do que normalmente se espera de uma audiência, especialmente das trabalhistas, área em que atuo com maior frequência.
O algoritmo das redes sociais me entrega rotineiramente vídeos de colegas discutindo com magistrados em audiências virtuais, interrompendo, corrigindo juízes e adotando uma postura de enfrentamento quase permanente. A narrativa costuma ser a mesma: aquele seria o advogado destemido, que “não abaixa a cabeça para ninguém” e que sabe defender verdadeiramente o seu cliente.
Esse tipo de conteúdo gera engajamento, repercussão, seguidores e, muitas vezes, fama para quem o publica. O problema é a consequência que isso produz para todos os demais profissionais: cria-se no público, inclusive nos nossos clientes, a impressão de que o advogado que não transforma a audiência em um confronto é fraco, omisso ou não está defendendo adequadamente os interesses de quem representa.
Só que esse “show” não é o normal.
Na imensa maioria das audiências, o que impera é o respeito entre os envolvidos. Advogados, magistrados, servidores, partes e testemunhas sabem, ou deveriam saber, que o ambiente exige técnica, equilíbrio e urbanidade. Não há hierarquia entre magistrados e advogados no exercício de suas respectivas funções, mas isso não significa que a relação deva ser marcada por provocações ou conflitos desnecessários.
Há algum tempo vi, no Instagram, um vídeo de uma advogada criticando justamente essa postura de colegas que tentam vender a imagem de que o bom profissional é aquele que está sempre em conflito com o juiz ou com o advogado da parte contrária. Infelizmente, não me recordo do perfil para lhe dar o devido crédito.
E concordo com a crítica.
O bom advogado não é aquele que faz mais barulho em audiência.
É aquele que conhece o processo, domina a técnica, sabe quando deve se manifestar e, principalmente, sabe como registrar adequadamente uma irregularidade e utilizar os instrumentos processuais disponíveis quando alguma coisa foge do que deveria acontecer.
Defender o cliente não significa criar um espetáculo.
Às vezes, a melhor defesa é firme e incisiva. Em outras, é serena e técnica. O que define a qualidade da atuação não é o volume da voz, a quantidade de discussões ou a capacidade de produzir um corte viral para as redes sociais.
É o resultado de uma atuação responsável, preparada e juridicamente fundamentada.
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