Por Higor Maffei Bellini
( com revisão de texto feita por ia)
Houve um tempo em que o futebol brasileiro, para não falar mundial, mas como não tenho essa percepção histórica, tinha uma narrativa quase coletiva.
Quando o jogo era visto pela televisão aberta, em um único canal, com as mesmas imagens para milhões de pessoas, ou vivido no estádio, onde a arquibancada funcionava como um único organismo: gritava junto, reclamava junto, celebrava junto. Assim a chamada “voz da arquibancada” não era apenas um slogan. Era a expressão de uma percepção relativamente homogênea, moldada pela experiência compartilhada e pelos poucos meios de comunicação que mediavam o espetáculo. Hoje, porém, essa que promovia a homogeneidade se dissolveu.
A multiplicidade de câmeras, que mostram os jogos, ou apenas um lance, sejam elas oficiais, amadoras, de celular, transformou cada torcedor em produtor e intérprete do próprio jogo. Qualquer pessoa na arquibancada, no sofá ou no bar grava, corta, legenda e publica.
O lance que a TV oficial, a que tem o direito de transição, seja na tv aberta, por assinatura ou por streaming, enquadra de um ângulo pode ser capturado de outro, mais baixo, mais lateral, com a reação da torcida ao fundo ou com o gesto de um jogador que a transmissão principal ignorou.
O que antes era um único olhar agora é uma constelação de fragmentos. Cada um vê o mesmo jogo de um jeito diferente e, que depois ao compartilhar, a imagem com seu comentário particular multiplica as versões possíveis do que aconteceu.
Essa multiplicação de modos de observar o jogo se soma a outra, igualmente poderosa: a dos influenciadores digitais. Há dezenas, centenas deles falando de cada partida, antes, durante ou depois das partidas Cada um carrega um recorte particular: histórico de clube, formação cultural, estilo de linguagem.
Nas reded de seguidores. Um analisa o posicionamento tático com a frieza de quem estudou o jogo; outro privilegia a emoção, a “raça”, o “coração”. Um enxerga a expulsão como injustiça histórica; outro, como consequência lógica de um comportamento reiterado.
Não se trata apenas de opinião, de uma única pessoa. Trata-se na verdade da dispersão de diversos filtros distintos visuais, afetivos, identitárias, que reorganizam os mesmos fatos em narrativas incompatíveis entre si.
O resultado desta atual múltipla realidade é a perda da percepção homogênea, da torcida em relação ao que está ocorrendo. Assim já não é possível dizer, com a mesma segurança de antes, “o que a torcida pensa”. A torcida pensa muitas coisas ao mesmo tempo. Mesmo quando um vídeo viraliza e é copiado, republicado, remixado, e a interpretação original da primeira pessoa não se unifica. O compartilhamento, em verdade atual apenas multiplica o alcance, mas não padroniza o sentido. Cada grupo, cada bolha, cada timeline lê o mesmo material à luz de suas próprias referências. O lance polêmico se torna prova de roubo para uns e de incompetência alheia para outros.
Assim o personagem do jogo, seja atleta, juiz ou técnico se torna o herói, o vilão, o ídolo ou o fracassado, muda de acordo com o recorte escolhido.
Por isso a chamada “voz da arquibancada” perdeu a força que um dia teve. Ela ainda existe, mas fragmentada em mil vozes que se sobrepõem, se contradizem e se alimentam mutuamente nas redes.
O estádio continua sendo o lugar da experiência coletiva intensa, mas a narrativa pública do jogo já não nasce dali de forma unificada. Nasce de uma infinidade de ângulos, de cortes, de legendas e de interpretações que competem pela atenção e pela verdade.
Essa mudança não é apenas tecnológica. É cultural.
O futebol brasileiro sempre foi terreno fértil de paixão e de disputa de sentidos. O que a nossa era com múltiplas câmeras e dos influenciadores fez foi acelerar e pulverizar esse processo. A homogeneidade na interpretação dos acontecimentos que antes parecia natural revelou-se, em grande parte, produto de um sistema de mediação limitado. Agora que a mediação é excessiva e descentralizada, a diversidade de olhares se torna o próprio modo de existência do espetáculo.
Há perdas, claro. A dificuldade de construir consensos mínimos, o excesso de ruído, a polarização que transforma cada jogo em trincheira. Mas há também ganhos: a possibilidade de ver o que antes ficava de fora do quadro oficial, a democratização do comentário, a riqueza de perspectivas que um único olhar jamais conseguiria abarcar.
Assim acho que podemos dizer que o torcedor de hoje não recebe o jogo pronto. Ele o reconstrói, o disputa e o reinventa a cada publicação.
A voz da arquibancada não desapareceu por completo. Ela se multiplicou. E, ao se multiplicar, deixou de ser uma só.
O que resta é o desafio de conviver com essa polifonia, sem nostalgia excessiva pelo tempo em que todos pareciam ver o mesmo jogo, e sem a ilusão de que a multiplicidade de olhares anula a paixão comum que ainda reúne milhões em torno de uma bola.
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