Por Higor Maffei Bellini
Podemos usar a expressão Preço Brasil para explicar uma realidade cada vez mais presente no futebol nacional: o custo elevado para assistir presencialmente ao próprio time. Não confundir com Custo Brasil.
Quando os orcedores de clubes da primeira divisão, especialmente daqueles que atuam em arenas modernas ou em estádios construídos ou reformados para a Copa do Mundo de 2014, frequentemente se deparam com ingressos vendidos por valores muito altos, para o padrão do brasileiro médio. E existe uma razão simples para que esses preços continuem sendo praticados, pelos clubes: mesmo reclamando, muitos torcedores pagam, e geralmente são sempre os mesmos que vão aos estádios, em todos os jogos.
O vínculo com o clube não funciona como uma relação comum entre consumidor e empresa. Para grande parte da torcida, deixar de ir ao estádio, para ver seu time, seja como mandante ou visitante, significa abrir mão de acompanhar de perto algo que faz parte de sua identidade.
Os clubes conhecem essa ligação emocional e sabem que existe uma parcela do público disposta a fazer sacrifícios financeiros, quando não familiares, para não ficar longe do time.
É justamente aí que surge o Preço Brasil nas arquibancadas.
Quando um único ingresso, de um jogo de futebol, pode representar mais de 10% de um salário mínimo, é difícil defender que assistir a uma partida de futebol continue sendo uma forma de entretenimento popular e acessível.
Para uma família que queira levar duas, três ou quatro pessoas ao estádio, somando transporte e alimentação, o custo de uma única partida pode pesar consideravelmente no orçamento mensal.
“Mas o sócio-torcedor paga menos”
Um dos argumentos utilizados, pelos clubes ou de jornalistas, para relativizar o preço elevado dos ingressos é a existência dos programas de sócio-torcedor. Segundo essa lógica, poucos torcedores realmente pagariam o preço cheio, o valor de face do ingresso, pois os associados recebem descontos. Quando não o ingresso “de graça” se esquecendo que a mensalidade é o pagamento deste
O problema é que essa conta costuma ignorar uma despesa fundamental: a mensalidade do próprio programa de sócio-torcedor.
Se uma pessoa paga determinado valor todos os meses para ter direito a comprar ingressos mais baratos, essa mensalidade também faz parte do custo de frequentar o estádio.
Não faz sentido analisar apenas o preço final apresentado na compra do ingresso e desconsiderar aquilo que o torcedor já precisou pagar para ter acesso ao desconto.
Dependendo da quantidade de partidas frequentadas, parte da mensalidade do programa deveria ser incorporada ao cálculo do custo efetivo de cada jogo.
Assim, dizer simplesmente que “o sócio paga barato” pode esconder o verdadeiro valor desembolsado pelo torcedor.
A paixão permite cobrar mais?
Existe ainda uma questão desconfortável.
Os preços permanecem elevados também porque existe demanda. O torcedor reclama, considera caro, mas muitas vezes compra mesmo assim porque não quer ficar longe do clube.
Em outros mercados, diante de um aumento exagerado de preço, o consumidor pode simplesmente trocar de marca ou deixar de comprar. No futebol isso é muito mais difícil. Ninguém deixa de torcer para seu clube, no estádio, porque o concorrente está oferecendo ingressos mais baratos.
Essa fidelidade praticamente incondicional cria uma relação comercial peculiar. O clube possui um consumidor extremamente leal e emocionalmente envolvido com o produto que está oferecendo, por toda a sua vida.
E essa fidelidade tem valor.
De esporte popular a entretenimento para poucos
O problema não está na existência de setores mais caros, camarotes ou experiências premium. É natural que existam diferentes categorias de ingresso, pois e existem diferentes tipos de torcedores
A questão é outra: deve existir também espaço para o torcedor comum.
O futebol brasileiro construiu sua história como fenômeno popular, onde os mais pobres podiam ir e serem felizes.
Quando assistir a uma partida começa a exigir uma parcela significativa da renda mensal de um trabalhador, alguma coisa mudou nessa relação.
A modernização dos estádios trouxe conforto, segurança e novas possibilidades comerciais.
Mas esse modernizar não deveria significar transformar as arquibancadas em lugares inacessíveis para justamente quem ajudou a construir a história dos clubes. Deixando inclusive de existir, passando a serem cadeiras numeradas e não mais aquele cimentado.
O Preço Brasil nas arquibancadas aparece quando aceitamos como normal pagar valores incompatíveis com a realidade econômica de grande parte da população simplesmente porque existe alguém disposto a pagar.
Enquanto a paixão continuar falando mais alto que o bolso, os clubes terão poucos incentivos para reduzir seus preços.
E talvez essa seja a questão mais importante: até que ponto é justo transformar a fidelidade do torcedor em justificativa para cobrar cada vez mais?
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