Inteligência artificial na advocacia: velocidade não substitui repertório

Por Higor Maffei Bellini

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos escritórios de advocacia. Ela organiza documentos, resume decisões, sugere argumentos e localiza informações em poucos segundos. Esses recursos podem aumentar a produtividade dos advogados, mas também trazem um risco, para o profissional humano, que merece atenção: a substituição do processo de aprendizagem pela simples obtenção de respostas rápidas.

Esse problema pode atingir toda a advocacia, mas tende a ser ainda mais relevante para advogados esportivos e trabalhistas. Nessas áreas, a palavra oral ocupa um lugar central. Audiências, sustentações, negociações, reuniões com clientes, atletas, clubes, sindicatos e empresas exigem raciocínio rápido, domínio do assunto e capacidade de relacionar diferentes conhecimentos.

Quando o advogado realiza uma pesquisa tradicional, lendo livros, artigos científicos ou lendo decisões dos tribunais, ele normalmente encontra informações que ultrapassam o objetivo inicial.

Durante a leitura de leis, decisões, doutrina, contratos e regulamentos, surgem conceitos, interpretações e situações que, embora não sejam utilizados naquele caso específico, passam a integrar o seu repertório profissional. Mais tarde, esse conhecimento pode ser acionado em outro processo, numa audiência ou durante uma negociação.

A inteligência artificial, por outro lado, tende a entregar uma resposta direta, organizada e aparentemente suficiente. A rapidez é útil, mas pode reduzir o contato do profissional com o caminho percorrido até a informação. Aos poucos, o advogado corre o risco de saber menos sobre o tema, ainda que produza mais documentos em menos tempo.

Na prática, o maior valor de um advogado não está apenas em possuir a melhor informação. Está em saber quando utilizá-la, como adaptá-la ao caso concreto e de que maneira apresentá-la ao juiz, ao cliente ou à parte contrária. A informação isolada não substitui experiência, estratégia, interpretação e sensibilidade.

Além disso, a IA pode apresentar dados incorretos, incompletos ou desatualizados. Por isso, todo conteúdo gerado deve ser conferido em fontes seguras. O advogado continua sendo responsável pelas escolhas realizadas, pelos argumentos apresentados e pelas consequências de sua atuação.

A tecnologia deve funcionar como apoio, e não como substituta da formação jurídica. Usá-la bem exige equilíbrio: aproveitar a velocidade sem abandonar a leitura, a reflexão e a construção do próprio repertório.

Advogar não é uma corrida de velocidade. É uma prova de resistência, preparação e capacidade de tomar boas decisões ao longo do caminho.

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